A maldição da dentição

Um texto não recomendado a quem nunca tirou dentes.

Por cá, tem sido assim. Uma canseira. Não tem havido muito tempo para digerir os dias que estão a passar a um ritmo estonteante. Quando os porcos bailam adivinham chuva e no meu caso foi mais ou menos assim. Seguindo à letra, bailaram os porcos e agora tenho uma nuvem negra a pairar sobre a cabeça. Já sinto os chuviscos e tudo.

Há uma semana que me dói tudo. Arrumei o capítulo festivo e ingressei numa coboiada do pior. Sim. Como é que eu posso descrever o facto de ter de tirar quatro dentes sem assustar as pessoas que nunca tenham passado por isto?

Vamos dissecar o assunto, indo ao que interessa. Isto é bom? É mau? É assim assim? Suportável? Insuportável? Só encontro um termo. Massacre. Estão a imaginar tortura chinesa? É isso versão tortura à portuguesa. Quatro dias com gosto a ferro na boca – uma delícia que vai bem com Compal de maracujá e que dessa fusão é possível saborear um gosto a mofo. Sete dias com dores nas gengivas, somando as das articulações. Dores ao comer. Dores ao dormir. Dores ao lavar os dentes. Dores ao falar. Dores. Dores. Dores. E vem com extra! Boa! Um bónus é fixe nestas ocasiões!, pensam vocês. Sintomas de irritação, tristeza e de não querer brincar mais a isto. Eu não disse que o extra era positivo.

Eu sempre pensei que ia dar conta do recado e que ia ser canja e que o cenário não devia ser bem assim como as pessoas pintavam e mi mi mi. Ai não que não! Montou-se todo um carnaval dentro da minha boca, depois das festas. PIOR. Esta semana preciso de tirar mais um e colocar elásticos. E na semana que se avizinha diz que tenho de pôr o aparelho superior. Sofrer, sofrer para bem parecer, já dizia a avó da C. . Confesso que soltei uma lágrima muito sentida quando se me foi extraído o dentinho. Todo ele jorrava saúde. Ah, e sangue, vá. Branquinho da raiz até à coroa. Nisto, a J. quis pagar-me um gelado porque não aguentou ver-me a entrar num estado de tristeza profunda. E lá fui eu, de braço dado com a minha alegria disfarçada, comer um Perna de Pau, na esperança de estancar o sangue. Pobre alma enganada que teve de ir para casa com um bocado de algodão entalado a meio de dois dentes. Um desperdício teres de tirar dentes tão bons, dizem as más línguas. Pois, mas os meus dentes acotovelam-se há anos! Tive de tomar medidas drásticas e pôr um ponto final nisto de quererem invadir o espaço uns dos outros. Segundo a J., os dentes estão sempre em movimento, por isso tratemos do assunto atempadamente para evitar males maiores. O ar é de todos, mas a boca é minha e sou eu quem manda no barraco.

Um amor a minha J. . Para quem odeia ir ao dentista, ir à JAQ é como ir ao psicólogo. Entro um trapo, saio impecável. Daqui a dois anos falamos. Ela diz que vai compensar toda a dor e sofrimento e todas as lágrimas que me escorreram pela cara abaixo e todas as lágrimas que tive de conter e isto e aquilo. E eu espero bem que sim, aliás, não posso esperar outra coisa.

Com isto dos dentes fiz novos amigos. Pronto, piiiquena, nem tudo é mau! Mas quem vai querer travar uma amizade contigo nesse estado?, pensam vocês, almas pensantes. Parece incrível, não é? Um saco de gelo. Uma caixa de Ben-u-ron. Uma caixa de Brufen. Uma caixa de Nestum de chocolate. Damo-nos bem e isso é que interessa. É mais que um matrimónio. Na saúde e na doença até que o aparelho nos separe. Daqui a dois anos acho que nenhum dos medicamentos me vai fazer efeito nunca mais na vida – ou então vou ficar imune por dez anos -, já não vou poder com Nestum de chocolate e devo ter ganho uma queimadura nas maçãs do rosto. Mas tudo bem. Eu aguento. Quantos é que são? Quatro? Ah pffff…podiam ser oito, são SÓ quatro. Vai ser canja. E ainda só tirei um. Tenho para mim que ninguém me vai ver os dentes nos próximos dois anos. Que tortura vai ser não poder rir com a boca escancarada, mesmo como eu gosto. Enfim…o que é que alguém me pode dizer neste momento? Nada. Isto dói como o raio e é tudo por agora.

Depois do desabafo. Fica aqui o registo dos dias felizes pré-maldição-da-dentição, porque eu não gosto de mostrar coisas que nos fazem mal à vista. Sou mais pelas alegrias, porque tristes já bastam as palavras. É uma forma de me mentalizar que melhores dias virão, tão bons ou melhores do que os que já tive até ao dia de hoje. E anotem o recadinho num post-it amarelo. Se eu não vier cá dar o ar da minha graça nos próximos dias é porque provavelmente hei-de estar lavada em lágrimas, a tentar recuperar do trauma que é ter duas entradas USB na boca. Ah, e vou estar muito entretida a travar uma nova amizade… com uma palhinha.

A M.

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3 thoughts on “A maldição da dentição

  1. Muito bom Que bem escreves e descreves toda a situação. Deixas-nos pegados ao pc. Impossível deixar a leitura a meio. Grande M. Beijinho , rápidas melhoras e continua a nos brindar com textos excelentes como este.

    • Oh, tão querida! Obrigada, Gilda! Fico muito contente por saber que alguém me lê e que até gosta destes meus devaneios. Podiam muito bem ficar fechados numa gavetas, mas é giro esta sensação de poder partilhar com alguém, que está do outro lado e não conheço, um bocadinho da minha vivência. Beijinhos e obrigada 🙂

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